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UM SUSTO, UMA PAULADA: CLASH!! E A VIDA CONTINUA(por Ana Maria Bahiana)

publicado originalmente na Revista SOMTRÊS #19 em 1980)

Aí você vem vindo um dia pela rua achando que talvez não haja futuro mesmo, como diziam os Sex Pistols: “Nooooooooo fuuuuuuuture, noooooooo future for you”. Ou que a tal da maturidade chega mesmo e seus ouvidos ficam mais grossos ou que esses samboleros de desencontros amorosos aí no rádio até que não são tão chatos assim ou que, caramba, às vezes é melhor pôr uns patins e comprar umas joelheiras rosadas e uns fones de ouvido pra ficar plugado na Rádio Cidade.

Aí você vem pela rua se perguntando aquelas jogadas tipo pra que ?, o que foi feito ?, como é que é ?, quem está sendo enganado ?, e vem pensando que não há mais nada, nada, nada, nada mesmo que faça seu coração bater mais depressa, ou que dê aquele gelado na boca do estômago ou que possa te acordar e, porra, te fazer sair dessa rua ou desse quarto ou te ponha dançando ou te dê coragem ou alegria ou, porra, esperança.

Aí você ouve: “Londres está chamando!!!!” (Londres ? Como ? Isso já não morreu ?) “Londres está chamando o submundo / Saiam daí garotos e garotas / Londres está chamando / Não olhem para nós / Aquela beatlemania falsa já caiu por terra / Londres está chamando os imitadores / Esqueça isso irmão, faça as coisas do seu modo….”

A voz é verdadeira, é humana e tem raiva, desespero, gana de reagir. A bateria é implacável – o modo como ela rosna cá na frente, o modo como ela vira ponto de exclamação, grito. E há duas guitarras e um baixo, mas isso você demora um pouco mais a perceber porque ninguém está se exibindo e tudo soa como um único tecido vivo; negro, básico.

Alguma coisa saída da noite dos tempos de rock’n’roll. Do Delta, de Memphis, de Detroit, do bairro jamaicano de Londres. Alguma coisa muito primitiva e muito refinada, uma barricada sonora que você agora ouve melhor, tem tantos pequenos detalhes e contracantos e riffs, que tornam quase impossíveis não fazer os dedos dos pés mexerem e as mãos ficarem suadas e inquietas e (será mesmo ?) seu coração bater mais veloz.

Oh! Sim!!! É claro que você não é bobo. Você já ouviu muitas coisas boas ultimamente, ouviu bons discos de reggae que até te fizeram dançar e Tom Petty, Joe Jackson, Bram Tchaikovsky e coisas bem bonitas nessa linha que parece que sou uma crítica aí (aqui?) chamou de fundamentalismo rock’n’roll. Você sabe que há vida além do funk e até acha essas coisas todas muito boas e compra os discos.

Mas isto aqui é diferente. Há alguma coisa aqui. Uma espécie de raiva. Uma espécie de guerra. A convicção de um condenado à morte clamando inocência. Alguma coisa que você não ouvia desde…desde…desde os Stones em 69 ? (aquilo existiu mesmo ?)…Dylan em 64 ? (existiu mesmo ?)…Who em 69 ? (mesmo ?)…

Você compra um jornal inglês e primeira leva um puta susto porque tem lá centenas de grupos que você nem sabia que existiam. Mas fica frio (jura não mais comprar a Rolling Stone). Lê que Londres chamava via um grupo chamado The Clash: Mick Jones, Joe Strummer, Paul Simonon e Topper Headon. Todos londrinos “of course”.

Lê que eles dizem – e eles são até chatos no seu proselitismo faça-você-mesmo. Você está acostumado a desconfiar e desconfia e eles insistem tanto no pouco que sabem, no muito que pretendem. Você acredita um pouco porque, porra, eles estão como você afinal de contas; tão perdidos e incendiários como você.

Você compra os outros dois discos deles. Não são tão bons, mas você entende tudo melhor: na barricada sonora de “The Clash”; nas guitarras imensas de “Give’em Enough Rope”. Você ouve a mesma convicção, a mesma fagulha que você não consegue pegar.

Londres está chamando. Você ouve sem cessar. Você ouve: “Eu escutava o pessoal do andar de cima / gritando e brigando toda a noite / e esse som foi meu primeiro sentimento /… / eu compro meu superálbum de discoteca / esvazio uma garrafa / e me sinto um pouco livre”… (a bateria é demente; ela costura tudo e segura tudo, até quando aquela linda guitarra faísca e geme tão brava que você enlouquece de desejo).

Você ouve: “Quando baterem na sua porta / como você vai atender ? / Com as mãos na cabeça ? Ou no gatilho de um revólver ?” (você tem medo – baixo, guitarra, bateria ondulam num quase reggae, o som da voz é escuro; aqui há um túnel, um pesadelo).

Você ouve: “Trate-me bem / garota de programa / pó da vida onde não há vida / então, trinca cara, trinca…” (tudo num fuso só, um fuzil só, uma lâmina aguda de voz e eletricidade, tudo nervoso e cocainímico, mas Joe Strummer está rindo. Está rindo, cara, rindo!! E você pula pela sala rindo também).

Você ouve: “De cada porão imundo em cada rua imunda / Eu ouço o som das palmas marcando cada batida / E isto é só a batida do tempo / a batida que nunca passará” (no fim da música Joe Strummer murmura, enquanto duas guitarras fazem a coda mais emocionante que você conhece: “Nós vamos dar trabalho / Nós vamos botar pra quebrar / raise trouble, raise hell”).

Você acredita. Lá no meio há uma virada da bateria que poria Keith Moon no céu e Joe Strummer canta como um galo enfurecido. (Além do mais isso aqui é musica de macho).

Confundi vocês, queridos?

E quando você pensa que acabaram os dois lados deste banquete, desta jornada até as profundezas da louca cidade ocidental, do fim do século, deste delírio acordado – acordadíssimo – deste acesso de lucidez luminosa que não lhe poupa dor e tesão e paixão e prazer, desta desvairada esperança de que o rock’n’roll existe mesmo e que ainda há coisas possíveis a serem feitas enquanto toda esta merda não explodir de vez.

Pois bem, quando você, suado e estafado acha que acabou, não acabou – uma coda majestosa se ergue das sombras do disco (não está escrita na capa, você ainda tem tempo de perceber) e empurra você de volta à rua, àquela rua, a tal por onde você passava um dia achando que talvez não houvesse futuro mesmo.

Alguma coisa quebrou, irremediavelmente, em seu peito.

Você está vivo!!!!

A jornalista e escritora Ana Maria Bahiana nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1950. Especializada em jornalismo cultural desde o início dos Anos 70, ela escreve sobre cinema e música. Foi secretária da redação da primeira edição brasileira da revista Rolling Stone, em 1972. Trabalhou nos principais jornais brasileiros e atuou na França, na Australia e nos Estados Unidos. Foi editora e chefe de redação da revista Screen International. Na TV, foi correspondente internacional em Los Angeles do canal Telecine e da TV Globo. Trabalha para a Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, responsável pela premiação anual dos Golden Globes. Acompanhe seus textos pelo Blog da Companhia das Letras e pelo website dos Golden Globe Awards

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