Chaves: #todosama

foto: Edvill, no Flickr

foto: Edvill, no Flickr

Tão certo quanto dois é dois são quatro é que se você tem entre 25 e 35 anos, você dançou É o Tchan, passou muitas manhãs vendo desenho animado na Xuxa e assitiu a todos, ou quase todos, os episódios de Chaves. É fato, e contra fatos não há argumentos. O seriado, que é recorde em exibições no país, começou a ser veiculado no Brasil em 1982, enquanto que no México, o primeiro episódio foi ao ar há 40 anos.

O fato é que tem como não amar não. Chaves já foi objeto de estudo do então estudante de jornalismo Paulo Franco, que lançou, em seu trabalho de conclusão de curso, um livro reportagem chamado “Chaves: foi sem querer, querendo?”, em que se debruça a estudar o seriado como fenômeno de mídia de massa.

No livro, há trechos que revelam que o Chaves é a menina dos olhos do SBT – um episódio clássico foi quando Ana Maria Braga iria estrear na Globo, em 1999, no horário do almoço. À época, o SBT corria para se consolidar no segundo lugar de audiência e tentava conquistar a liderança. Só que não havia plano na casa para a estréia de Ana Maria, e a direção acreditava na bancarrota no horário. “Coloque o Chaves”, foi a determinação de Sílvio Santos, e o seriado ganhou a liderança nas duas semanas de estréia do Mais Você.

O fato é que “todos ama” o Chaves. E para festejar, algumas ações legais vem ocorrendo desde o mês passado. A primeira: a disponibilização de todos os 150 episódios dublados em português em um canal específico no Youtube. Eis o link. Não vou postar o vídeo, pois o Ecad pode vir querer me cobrar direitos autorais (oi?).

A segunda, que é a MAIS ENGRAÇADA: a Televisa, emissora mexicana original do Chaves, criou uma coreografia pra geral fazer lipdub, no meio da rua. Garanto risadas a este momento seu, se você dispor de quatro minutos para assistir à versão country-tosca de “Que bonita sua roupa”. Clica aqui. E depois, aqui, pra ver que a GALERA lá no México realmente aderiu à dancinha, em massa.

A terceira, mostra que se o negócio já tá bem ao estilo 2012, no balanço das horas tudo pode piorar (hehe). É que o próprio SBT resolveu lançar a sua dancinha tosca, agora com a versão de “Que bonita sua roupa” em samba. E em fevereiro último, pouquíssimo antes do carnaval, foi a vez dos brasileiros mostrarem seu gingado e dançarem no parque do Ibirapuera! Mas não achei um vídeo com a dancinha em si.

Viva el Chavo!

Deu branco nas políticas culturais

Jaqueline Fernandes é produtora cultural e mantém, em Brasília, a Griô Produções. Além disso, é militante das causas negra e das mulheres. Hoje, é dela esse espaço. Ela publicou o texto a seguir em sua página do Facebook, e estou reproduzindo, com a devida autorização, para que partilhemos mais de suas reflexões sobre política cultural.

Abre edital. Para saber, geralmente, tem que fazer parte um circuito seleto. Abre edital, uma mãe de santo que confere e-mail uma vez por semana recebe a informação. Não entende muito. Faltam dois dias. Pede ajuda. Ela faz uma rede, passa pros grupos de capoeira, que passam pros de percussão. O movimento cultural negro se agita, fóruns multiplicam a oportunidade. O correio nagô faz o serviço. A negrada se ouriça, quer participar, levar a cultura afro-brasileira pros palcos, ser remunerada. O jogo é pesado: tem que ter CNPJ, saber elaborar projeto, fazer inscrição online, ter nota fiscal para comprovar antigos cachês que nunca foram pagos, contratos que vão ser analisados pelo Ministério Público.

O terreiro não tem documento. A capoeira não tem Ordem dos Músicos. Mestras e mestres griôs não tem o valor da oralidade ancestral considerada na maior parte dos editais. As comunidades quilombolas não estão em dia com o ECAD. Nós sempre criamos, mas os direitos autorais não entram nos nossos bolsos. Para tradições negras, regras brancas. A cultura do sinhôzinho ainda é a que tem fomento. Quem tem os mecanismos, leva. E daí vem o papo de ter que aprender, é fato. Mas eu me pergunto pra que a mestra de capoeira vai querer ter OMB…e por aí vai a nossa batalha: qual edital vai considerar nossas especificidades? Porque também queremos jogar de acordo nossas preciosidades e referências.No ano de 2009 começou no Brasil todo uma intensa mobilização do movimento cultural e social negro para a participação na II Conferência Nacional de Cultura, que aconteceu em 2010. Foi realizada a I Conferência Nacional de Cultura Negra. No Distrito Federal o movimento realizou a I Conferência de Cultura e Comunicação da População Negra, de onde saíram vinte propostas, posteriormente encaminhadas para as conferências de cultura e comunicação. O processo de conferência distrital e a realização da conferência integrada foram marcos na organização do movimento cultural do DF porque ali estávamos diariamente lutando, indo a reuniões, exigindo a formulação de políticas culturais específicas e mobilizando a população e as/os artistas negr@s para serem delegad@s e poderem votar nossas propostas. Foi justamente este processo de árdua pressão social e política que culminou na criação do setorial de Culturas Afro-brasileiras na III Conferência Distrital de Cultura, realizada no início de 2011 pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal.

Uma conquista ímpar, mas que, como tudo que vem para o povo preto, não viria fácil. Para cada dez pessoas presentes, era possível eleger uma delegada/do. A angústia era grande, porque se não lotássemos a plenária de pessoas negras se inscrevendo no recorte, mais uma vez iríamos ter que ir pra casa com a resposta entalada “vocês tiveram um setorial e não se organizaram”. Conseguimos um setorial e teríamos que mobilizar geral e criar rapidamente estratégias para ter nossas propostas em todos os eixos da conferência. Teríamos que ser muitas e muitos e que nos dividir espertamente, esperteza difícil pra quem está ocupad@ com o racismo e a dureza do dia-a-dia.

A cadeia produtiva da cultura no DF está cercada por trabalhador@s, artistas, intelectuais e gestoras/es negros, trazendo, ou não, o recorte racial. A cultura negra é muito forte aqui, tanto que os orixás nos protegeram sempre, mesmo quando foram arrancados da Prainha por mais de dois anos, pelos evangélicos. Nós elegemos doze delegad@s do setorial Culturas Afro-brasileiras e conseguimos representantes em outros segmentos. Além de propor avanços, estudamos incansavelmente todas as propostas da Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, da Conferência Nacionalrde Cultura Afro-brasileira e da Conferência Nacional de Comunicação. Revendo todo este material a gente se emocionava, porque em cada proposta estava o resultado de muito esforço, de muita experiência em fazer tudo sem política pública em cada estado e, estava, principalmente, a dúvida: quais dessas propostas até agora transformaram-se em política pública mesmo?

Encaramos os desafios. O setorial se destacou em força e participação. Ufa, um processo histórico, bonito, mas penoso. A questão é: essas políticas, as que a gente propôs em todas as etapas, elas não estão garantidas e, ao contrário, estão diariamente ameaçadas, porque nós temos que cuidar o tempo todo do que ainda não conquistamos e também do que já conquistamos, pra não ser tomado. É como o GOG diz “o opressor ameaça recalçar as botas” quando se fala em ações reparatórias mínimas.

A realização das conferências distritais de cultura foi muito importante e um pontapé para reunir diversas iniciativas e entidades do movimento cultural e social negro. A sensibilidade da Secretaria de Cultura em criar o nosso setorial é uma conquista a ser comemorada. Mas não é suficiente produzir um documento e entregar ao estado. É preciso que o estado tome estas resoluções como diretrizes para a formulação de políticas públicas. Porque o “nós por nós” a gente já conhece, mas o estado por nós, aí são os Outros 50 que queremos ver. Precisamos de políticas que de fato considerem e fomentem a cultura negra, identidade, manifestações estéticas, econômicas e nossas formas organizativas. Como o objetivo da III Conferência Distrital de Cultura foi nortear o Plano Distrital de Cultura, fiquemos atentas e atentos ao que vem por aí. Cuidar do que é nosso e do que construímos no setorial e ver como serão os próximos editais e políticas. Somos muit@s e temos título de eleitor/a, para começo de conversa.

Alguém lucrou com a morte de Amy

amywinehouse - Vectorportal

Amy Winehouse. imagem: Vectorportal, no Flickr

Em 4 de janeiro de 2008, a Folha de S. Paulo noticiou a existência de um bolão virtual em que um dos apostadores deveria acertar a data da morte de Amy Winehouse. O dia foi ontem, 23 de julho de 2011, quando a Polícia britânica a encontrou morta em casa, sem causa mortis conhecida ainda.

Lembra a BBC Brasil que “a polícia não confirmou imediatamente a causa da morte, mas é impossível olhar sua vida sem pensar no porque as drogas e a bebida tiveram tanta importância, chegando por vezes a ofuscar seu talento. Um talento tão grande que é agora reverenciado por fãs e colegas do meio musical”.

Quanto ao bolão de mau gosto, hoje há uma mensagem na capa do site que diz “Amy Winehouse já passou. Vamos esperar que sua morte seja um exemplo para os jovens de como não lidar com seus problemas. Que descanse em paz e sua música viva. O vencedor será anunciado posteriormente”.

O crítico de música da Folha, André Barcinski, escreve hoje sobre a maldição dos 27, dos inúmeros astros do rock – embora Amy tenha sido uma cantora de soul, e R&B, impossível não enxergar nela todo o rock’n roll way of life – tais como Kurt Cobain, Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix.

Eu? Eu lembro do vivo da Silva Edgar Scandurra e dos finados astros-nostros Cazuza e Renato Russo, em suas constatações. O primeiro, quando lapidou na música os versos “quanta gente hoje descansa em paz… meu rock star agora é lenda. Esse flerte é um flerte fatal – é sempre gente muito especial. Quanta gente já ultrapassou a linha entre o prazer e a dependência…”. Cazuza dizia que “meus heróis morreram de overdose”, e Renato, “é tão estranho: os bons morrem jovens”.

E também hoje me arrependo de não ter feito um esforcinho maior para ter estado no show de Amy em Sampa, em janeiro. Agora, resta-me desejar a ela: “kiss me here, baby, and go rest”.

Sérgio Maggio em três atos

foto: Claudia Ferrari, blog Cricriemcena (do Maggio!)

foto: Claudia Ferrari, blog Cricriemcena (do Maggio!)

Primeiro ato. Liberdade, o bairro mais negro da América do Sul, Salvador, Bahia. Aos 15 anos, ele se matricula na Escola Técnica Federal e lá, tem aula de Literatura e Língua Nacional com a professora Cecília – uma carrasca que, diziam as “línguas de matildes”, havia reprovado a própria filha. Dela, ganha a missão de adaptar uma crônica para o teatro.

Ele jamais havia ido ao teatro até então. Sequer referência familiar sobre a arte ele tinha. Ao entrar no palco, deixa cair a maleta que segurava para a cena, o que expõe a camisa, calção, cueca e meia que havia guardado da aula de educação física, instantes antes. Isso não estava no script. Tensão dos colegas de palco.

–  Meus documentosssss – grita, também fora do script, recolhendo cada peça. A plateia vem abaixo, em risos. E ele experimenta, pela primeira vez na vida, o poder do teatro.

Segundo ato. Escondidas, romantizadas, presas, excêntricas. Sem saber, afinal, quais eram as caras daquelas mulheres – se seriam as de Atenas ou as das personagens de reportagens de jornal – ele foi atrás para descobrir quem, afinal, eram as cafetinas baianas.

Da literatura de Jorge Amado, ele as imaginava como Marias Machadões, donas de bordeis mãezonas, apresentadas em Gabriela. Das páginas de jornais, recebia notícias sobre as cafetinas dos garimpos amazônidas, escravizando menores, autoritárias.

Ele estudava jornalismo na Federal da Bahia quando sentiu a necessidade de escancarar a face mais real das donas dos bregas – como os baianos chamam os bordéis, e que Caetano Veloso explica em Verdade Tropical que a origem do termo se deu a partir da  sobra deteriorada da placa que indicava a rua Padre Manoel da Nóbrega, a zona de baixo meretrício de Salvador.

A princípio, a necessidade de conhecer a cafetina de carne e osso era para um trabalho de faculdade. Corta para Brasília, onde termina este segundo ato. Já jornalista de Cultura, atua como repórter e crítico de teatro no Correio Braziliense.

Após onze anos de pesquisa, lança o livro-reportagem Conversas de Cafetinas, vencedor do prêmio Jabuti em 2010, e uma peça de teatro. O Cabaré das Donzelas Inocentes é apresentado pela primeira vez em 2009, no CCBB. Em cena, os nomes e algumas histórias das cafetinas reais que encontrou dão vida a uma história cheia de humor, amor e crítica.

Saiana – de Nazaré das Farinhas (BA), uma das mulheres mais maravilhosas que ele já conheceu –, Cabeluda – reza a lenda que tinha vastos cabelos em várias regiões do corpo –, Menininha – uma prostituta lésbica –, e China – a única com quem ele não teve contato, apesar de conseguir todas as evidências de que existiu e das citações em Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado.

As quatro, hoje, deixaram seus bordeis e percorrem o país, na ficção de O Cabaré. Aliás, não saíram de lá. Os levam consigo, para encantar plateias e públicos de todas as regiões do país, menos a sul. O nome da peça, aliás, é o nome de um desses cabarés por onde o agora jornalista, escritor e dramaturgo passou. A peça corre o país neste momento, já tendo ganhado o público e a crítica de Brasília, Vitória, Cuiabá, Salvador e Belo Horizonte.

Terceiro ato. Um dia, ele se deparou com o torso nu de um homem. Um torso que despertava as mais controversas reações nas pessoas, da apatia ao escândalo. Eram os que viam pornografia naquela imagem em tela, impressa pelas mãos de J. Abreu. A discussão, é claro, rende mais um roteiro. Eros Impuro. Agora, um monólogo em que o próprio autor da obra plástica dá vida à obra cênica. Como em O Elogio da Madrasta”, de Mario Vargas Llosa, discute sobre os limites entre arte e erotismo.

O pintor em cena é obcecado pela pintura desse quadro, sem jamais conseguir terminá-lo. Ainda que sozinho no palco, dialoga com o modelo que o empresta o torso. Com os modelos, todos garotos de programa. O clímax acontece a partir do momento em que o público já não sabe mais se acompanha uma verdade ou um surto. Afinal, para o artista não existe a censura interna da moralidade, apenas a ética. Então, aquele torso nu de homem não é pornografia para ele. Apenas para ele, talvez.

Epílogo. Essas são algumas das divagações sobre ele, que deixou Salvador e neste oito de julho (sexta passada) fez 10 anos de Brasília. Ele, que fez do teatro uma universidade da vida. Ele, que hoje, é o dramaturgo da cidade. Sérgio Maggio.

Dylan’s day e Djobi/Djobá

Like a Rolling Stone é a música mais influente do mundo, de acordo com a crítica especializada da revista Rolling Stone norte-americana. O compositor e intérprete é Bob Dylan, que hoje faz 70 anos. Yes, Dylan, you can sing:

foto: tenhomaisdiscosqueamigos.com

foto: tenhomaisdiscosqueamigos.com

No aniversário de 70 anos, rumores dão conta de mais uma vinda de Dylan ao Brasil, para a segunda edição do SWU, em Itu, em outubro. São rumores que, assim como o que diz que o Foo Fighters está por vir no mesmo festival, bem que eu gostaria que se concretizassem.

Para adentrar na história de Bob Dylan, a Rádio Nacional produziu um especial – que compõe o quadro História Hoje. Ficou bem legal, ouça, clicando aqui!

Dylan também chega aos 70 em meio à outra espécie de polêmica. Em seu site oficial, no último dia 13 ele esclareceu aos fãs que sim, foi muito bem recebido pela juventude chinesa, onde fez um show.

DJOBI/DJOBÁ

Além de hoje ser o Dylan’s Day, hoje é o dia do Cigano, aqui no Brasil. Como a minha última referência a esses povos – que são quase 1 milhão de pessoas só no nosso país – é a novela Explode Coração, de 1995, e a referência é ruim já que Glória Perez costuma ser bem caricata nos seus conhecidos “núcleos fantasiados”, vou deixar uma dica aqui.

A Agência Brasil preparou um ótimo especial, o “Ciganos: um Povo Invisível”, mostrando a realidade dessa população que chegou ao país há pelo menos 400 anos. Vale a pena.

Viagem psicodélica

Ela apareceu no início da Asa Norte... (foto minha)

Num determinado momento da história, uma grande quantidade de jovens quis se libertar de tudo o que já estava pré-estabelecido – o sistema – e salvar o mundo. Hunter S. Thompson, jornalista norte-americano, foi um deles.

Contratado pela Rolling Stone (revista porta-voz da contracultura nos EUA) nos anos 60 e 70, ele narrava essas viagens, em seu jornalismo gonzo (em que não há barreira entre narrador e personagens). Posteriormente, seus textos mostrariam as consequências devastadoras sobre a juventude de São Francisco – local que ficou popular pelo consumo insano e frenético da droga.

O que restou dessa época? Um imenso legado no que diz respeito à cultura. Literatura e música, em especial. E obras de arte, como essa kombi.

Como numa viagem a 1969 – ou ao desenho do Scooby Doo -, essa kombi parou em frente ao meu trabalho, ontem à tarde, e eu fui lá fotografar. Continuar lendo