14 Maio 2026

Entre o Sobrenatural e a Bússola Moral: Como o Cinema de Terror Manipula a Nossa Mente

Nenhuma marca do terror atual tem batido ponto nos cinemas com tanto sucesso quanto Invocação do Mal. Para se ter uma ideia do tamanho da coisa, a parte final da saga principal faturou quase meio bilhão de dólares em 2025, garantindo seu lugar no top 15 das maiores bilheterias globais daquele ano. Mas o que explica essa febre? Como a história do casal de parapsicólogos Ed e Lorraine Warren, junto com os derivados de Annabelle e A Freira, consegue arrastar multidões para as salas escuras? A resposta mora em um conceito muito bem orquestrado: a manipulação cinematográfica.

Alfred Hitchcock já nadava de braçada nessa arte. O mestre do suspense sabia exatamente como brincar com o nível de experiência e a percepção do público. Ele sacou que dar aos espectadores uma vantagem de informação — tipo mostrar uma bomba escondida debaixo da mesa onde os personagens conversam — era a chave para deixar todo mundo roendo as unhas. Ele também sabia o momento exato de quebrar essa tensão com um choque abrupto de violência. Era uma dança com a mente de quem assistia.

A forma como consumimos e processamos esse medo foi mudando. Depois que filmes como O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Halloween (1978) pavimentaram o caminho, os anos 80 foram dominados pelos slashers focados em adolescentes. Claro, tínhamos as adaptações de Stephen King e obras que tentavam ir na contramão dessa pegada, como Alucinações do Passado (1990), mesmo não estourando tanto nas bilheterias. Até a versão de 1993 de Os Invasores de Corpos tentou algo diferente, sendo a única a colocar uma adolescente no papel da clássica “Final Girl”.

Mas o jogo virou mesmo nos anos 90, e a grande culpada foi a TV. A série Arquivo X pegou o terror e deu a ele uma roupagem mais intelectual, mesmo que seu episódio piloto ainda flertasse com o clichê do terror teen. Aos poucos, a série abraçou a paranoia setentista, injetando teorias da conspiração na veia do público. A sacada genial foi tratar o paranormal com a lógica de uma série policial.

Fox Mulder usava elementos da nossa realidade, do mundo palpável, para dar base às bizarrices de cada semana. Era um pingo de realidade no meio da ficção, uma mentira ensanduichada entre duas verdades. Nossa mente comprava a ideia na hora. E qualquer dúvida que a gente tivesse era logo vocalizada pela Dana Scully, a médica cética da dupla. No fim das contas, fantasmas e demônios viraram apenas criminosos que, de vez em quando, quebravam a lei de forma sobrenatural. É engraçado notar como Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (2021) bebe direto dessa fonte, transformando os Warren em verdadeiros detetives do além. É o espírito de Mulder e Scully vivíssimo na década de 2020.

Se por um lado o cinema nos faz investigar demônios, por outro, ele nos obriga a investigar a nós mesmos. E é aqui que a manipulação de roteiro atinge um nível mais visceral e psicológico.

Recentemente, a galera que acompanha a franquia Jogos Mortais começou a queimar a mufa com um debate complexo: quem é, no fim das contas, o verdadeiro vilão da história? Se formos levar ao pé da letra, a resposta tá na cara. É o John Kramer, o Jigsaw. O cara montou um esquema bizarro de armadilhas e foi o arquiteto da morte de muita gente. Fim de papo, certo?

Nem tanto. A obra permite uma leitura bem mais densa onde a própria sociedade assume o papel de antagonista principal. O discurso do Jigsaw é que aqueles jogos doentios são um jeito torto de punir as pessoas por suas falhas morais, ensinando na base da dor como dar valor à vida. E a narrativa sustenta isso quando você olha para a ficha criminal ou ética de quem vai parar nas armadilhas. A Amanda Young, por exemplo, carregava o peso de ser uma ex-usuária de drogas condenada por assassinato. O Adam Stanheight era um advogado que jogou o próprio cliente aos leões. E o Zep Hindle vestia a farda de um policial totalmente corrupto.

Desde que James Wan e Leigh Whannell soltaram o primeiro Jogos Mortais no mundo em 2004, a franquia virou um monstro da cultura pop, gerando nove sequências e até aquele inusitado filme crossover com a franquia Olho por Olho. É inegável que a série levanta polêmicas e toma muita pancada da crítica pelo excesso de sadismo, pela violência gráfica e por situações que beiram o desumano.

Apesar de ser um soco no estômago, o verdadeiro triunfo dos jogos do Jigsaw não está no sangue jorrando, mas em como a história te prende. Há um roteiro muito sagaz por trás das cenas perturbadoras. Os filmes te entregam atuações memoráveis, personagens cheios de camadas e aquele suspense que te deixa sem fôlego esperando a próxima reviravolta absurda. É uma prova viva de que a manipulação cinematográfica, seja ela focada no sobrenatural como em Invocação do Mal ou na quebra moral humana de Jogos Mortais, continua sendo a ferramenta mais poderosa para não nos deixar dormir à noite.