Eduardo e Mônica, o filme: o que você vai ver é surpeendente

Tudo bem que a música dá uma ampla noção do que tem no filme: o Parque da Cidade, a Mônica de moto, festa estranha com gente esquisita… Mas é bem mais que um romance em Brasília. Bem mais!

Ele finalmente está pronto para estrear pelo país no dia 06 de janeiro de 2022, depois de diversos adiamentos por razões óbvias – a data inicial era 11 de junho de 2020. A pré-estreia foi nesta terça-feira (15), e a esperança desses tempos em que a pandemia arrefece fez lotar as salas do Park Shopping, em Brasília, com convidados que já completaram o ciclo vacinal. O filme que materializa nos corpos de Alice Braga e Gabriel Leone os que agora dão vida ao casal mais cantado da canção brasileira (sorry Oswaldo Montenegro e seu Léo e sua Bia) é lindo, como há de se esperar. Mas “Eduardo e Mônica” é mais do que lindo, é mais do que “e todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa que nem feijão com arroz”. É, mais uma vez, o olhar do diretor, René Sampaio, para além do que diz a música. E se em seu primeiro longa legionário, Faroeste Caboclo, fez obra densa e definitiva, ouso dizer que neste segundo ele chega à obra-prima.

Quando o entrevistei há quase 10 anos para a extinta revista meiaum e escrevia sobre Faroeste, René alertou: “não é um videoclipe, é como eu enxergo o desenrolar da história para além do que a canção mostra”. Seguindo esta mesma linha de pensamento, encontramos uma Mônica mais interessante do que já supunha Renato Russo. Se na música ela é médica e se interessa por Bauhaus, Van Gogh, Mutantes, Caetano, Rembaudt, coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar, o filme dá os porquês. Eu nem preciso falar sobre as qualidades cênicas de Alice, né? Ela é daquelas atrizes que carrega no olhar todo o estofo da personagem. Os mistérios e a completude humana estão todos ali, e com uma Mônica tão complexa talvez só mesmo ela pudesse viver essa mulher (só reconheço atrizes com essa mesma qualidade, nessa mesma geração, em Maria Casadevall e a um pouco mais jovem Letícia Colin).

Dando um spoiler inocente, desses que não tirará de você o sabor de assistir o filme, Mônica ganha aqui uma família. Sem revelar quem faz o quê, estão Bruna Spínola e Juliana Carneiro da Cunha vivendo parte dessa família e enchendo a história com nuances que, como já disse, dão os porquês para Mônica ser quem é. Cenas lindas nessa “subtrama”.

Gabriel Leone, clap clap clap. O Gabriel Leone também é nome enorme de sua geração, já é mais que sabido. Só que viver um Eduardo de 16 anos com o sorrisinho de adolescente que todo adolescente tem – repare: todo moleque punheteiro com essa idade tem um sorrisinho pueril e abobalhado – foi escolha mais que acertada também. Se você reparar bem, na canção, quem vive o maior arco dramático é ele: o que sai duma vidinha marromeno de jogar futebol de botão com seu avô (vivido por um Otávio Augusto que, pra variar, está encantador – e pena não poder revelar mais do que isso) se apaixona por um mulherão aos 16, passa no vestibular, aprende tudo o que há de importante e, após todos os vaivéns típicos dessa fase da vida, consegue continuar com esse mulherão. Vou dar só um micro spoiler de novo, novamente que não tira o seu sabor ao assistir: Mônica avisa que não dará pra ele, e ele diz que isso sequer passou por sua cabeça. Ela questiona, então, se ele é gay, e ele diz que “não, sou realista”. Aliás, como tudo na vida precisa de caixinhas e, assim sendo, estamos falando de uma comédia romântica, pode saber: o “comédia” está lá o tempo todo. Muitas boas risadas, principalmente com o personagem de Victor Lamoglia, o Inácio.

Elipse

O cinema usa um recurso chamado “elipse” para demonstrar passagem de tempo, sem que apareça um lettering escrito “dois anos depois”. Um exemplo de elipse lindíssima é o de “Um Lugar Chamado Nothing Hill”, quando Jude Law anda pela feira, em plano de sequência, e passam-se as estações do ano. Pois para a passagem de tempo de Eduardo – esse arco temporal de que estamos falando – foi feita uma elipse LIIN-DAAA. Ao som de “Deixar as Coisas Tristes Pra Depois”, de Tim Maia. Aliás…

Trilha

Toda a cremosidade e crocância dos anos 80, tempo em que se passa a história de Eduardo e Mônica, está presente numa acertada trilha sonora que tem, além do Tim Maia, A-Ha, Bonnie Tyler e até mesmo uma Legião Urbana, com “Será”, o que pode ser chamado de um easter-egg, né?

Easter Egg

O que é que Fabrício Boliveira está fazendo em uma pontinha de cena de festa, em “Eduardo e Mônica”? Hmm… Será que não seria mais adequado dizer que João de Santo Cristo estava naquela festinha? Rs. Se ligar lé com cré, observar o corte de cabelo e lembrar que Santo Cristo “fez amigos, frequentava a Asa Norte e IA PRA FESTA de rock pra se libertar”…

Trisal com Brasília

“Eduardo, Mônica e Brasília são o trisal desse filme”, disse René na abertura da sessão. Errado não está, e quem é daqui certamente se emocionará ao ver cobogós, quadras modelos e setores militares, eixos e certos cubinhos que revestem certos teatros fechados há tempos. E se conhecer um bocadinho mais da cidade, vai se emocionar até mesmo com uma certa fachada apresentada no filme (que não vou dizer qual a função cênica que ganha): a da termelétrica abandonada no SIA.

“Nossa, mas tão bom assim, então é irretocável?”, você pode me perguntar. A resposta é: sim.

foto: Janine Moraes / Divulgação


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4 comentários sobre “Eduardo e Mônica, o filme: o que você vai ver é surpeendente

  1. A cena em que o melhor amigo do Eduardo revela pra ele que namora um homem depois que ele pergunta o nome “dela” e depois ele fala “fala pro marcos que se ele te fizer mal eu arrebento a cara dele” me fez chorar horrores, a cena mais emocionante de todo o filme <3

  2. A cena do peixe que ela fez em homenagem a mãe dele fez eu derramar litros no cinema. Ah todo filme é lindo gente .

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