foto: romainguy / CC

Cansa!

Foi-se a octagésima tentativa de fazer esse site vingar. E diante das dificuldades para fazer escrita afetiva sobre a cultura do país, só uma coisa a dizer: “eles são fortes, mas a gente é ruim!”

É quase uma militância isso aqui. Dá um retorno zero de grana, em tempos em que tempo é escasso e precioso e é dinheiro. Mas é também um tesão. É um espaço pequeno, uma bostica de uma gota salgada no mar informacional que é a internet, mas é meu. E há tempos em que a vida fora dos stories te tomba, de modo a inviabilizar esse algo pequeno, porém feito com esmero e um bocado de suor, principalmente nos dias quentes em que, do meu home office kitnético, as horas sentado à frente do laptop formam uma piscina na bunda e nas costas. Feito com profissionalismo, respeitando os fazedores de cultura e os que se dedicam à pô-los na mídia. Contudo, há que se aplicar a tão propalada e na moda “resiliência”.

Nesse curto tempo em que dei um tempo de produzir vídeo pro canal deste site, os podcasts deste site, os textos diários deste site, rolou um bocado de tudo: de uma viagem magnífica para aquele paraíso cravado no meio do Atlântico chamado Fernando de Noronha a uma conjuntivite e uma internação de mãe. Houve também o susto de o dono da kitnet/escritório avisar: tá na hora de renovar o contrato de aluguel e aplicaremos um reajuste módico, apenas coisa de 24%. Not, obrigado, tô fora.

Mas é hora de voltar.

O profissionalismo que aprendemos com o capitalismo ensina a não escrever esse tipo de texto satisfatório, que denota a fraqueza de quem foi ali e deixou as coisas meio paradonas demais por aqui. Ensina que isso é coisa de blogzinho safado dos anos 2000. Que o certo é voltar voltando, como se nada tivesse acontecido, e é sobre isso e tá tudo bem. Mas às favas com esse tipo de coisa, vai? Vamo ser claro aqui, afinal, se um dia pretendo monetizar este lugar de modo a tirar daqui pelo menos grande parte do meu sustento, será sempre escrevendo com afeto e numa linha reta entre eu e você, horizontalmente, não na vertical ou diagonal. E sendo só um, há que se dizer essas coisas aqui sim. Eu e você estamos aqui vivendo, lendo, dormindo, cagando, andando, trepando, bebendo e comendo e isso é mais legal do que empilhar textos e mais textos etéreos no publicador deste site e programar disparos ao léu, sem que todo o ritual a que me proponho para publicar seja cumprido: se vou escrever sobre música ou disco novo, devo ouvir essa música e esse disco; se vou avisar sobre uma peça legal que vai rolar, que se condimente o texto com experiências em outras peças já vistas daquele diretore.

A vida requer pausas, mas a gente volta. Dia que isso aqui virar o sonhado ganha-pão e sustento; dia que eu aprender a otimizar os resultados de busca para que cada texto bombe muitíssimo (porque benzaDeus não há texto desse site que não bombe, ainda que mini); dia que algum conteúdo viralizar e memetizar e a base de seguidores inchar; espero ter mais gente por aqui, militando igual. Enquanto isso, se eu pauso aqui pausa e tá tudo bem.

Ainda que eu saiba que não, não tá tuudo bem. Que o audiovisual brasileiro, disse Wagner Moura ao Roda Viva nesta segunda-feira (1º), esteja morto e só existindo por causa dos streamings que entraram no Brasil. Ainda que o descuido com a pandemia ainda restrinja tanto nossas vidas e embora toda a cadeia produtiva da cultura esteja voltando, sentimos a falta dos que perdemos, como Paulo Gustavo e Aldir Blanc. E Tarcísio Meira, Nicette Bruno, Nelson Sargento, Genival Lacerda, Agnaldo Timóteo, Paulinho do Roupa Nova, Eduardo Galvão, Daisy Lúdidi, Daniel Azulay e Kleber (da dupla com Kaue). Registrem-se os que se foram por outros males, como Nelson Faria, Paulo José e Flávio Migliaccio.

A parte mais dolorosa de toda retrospectiva de fim de ano da Globo sempre foi a dos que nos deram adeus no ano, mas a potência dessa doença abriu uma ferida imensa nas nossas artes. Enquanto aguardamos dias bem melhores para breve, e eles hão de chegar, deveremos seguir rindo como atos de resistência, produzindo arte como atos de resiliência e escrevendo sobre, como forma de demonstrar que vale a pena seguir.

Nesse 2021 este site descobriu uma nova vocação: a de falar sobre os artistas que estão chegando, os consagrados que estão fora ou voltando ao mainstream, e fornecer mini resenhas. E foram inúmeros novos amigos até aqui. Não vou citar todos porque foram, benzaDeus, muitos, mas é sempre incrível quando Giancarllo, Luiza Goto, Juninho Bill, Luciana Martuchelli, Victor Abrão, Wild Robson, Izabella Rocha, tantos outros mais, entram em contato pra dizer que curtiram os textos. É incrível o reconhecimento de seus assessores de imprensa ao prestigiarem esse espaço humilde, mas limpinho. Vale bem mais que dinheiro – mas ó, eu quero, tá?

Cansa. Mas a gente toma um banho, passa um café e toca o barco.

foto: romainguy / CC


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