Coração ligado, beat acelerado: Virginie está de volta em disco de Roberto Gava

Vocalista da clássica banda oitentista de new wave Metrô, Virginie Boutaud está com 58 anos e mandando lindamente bem num daqueles duetos estilo “Duets” nesse disco de Roberto Gava, que se propõe a ser uma viagem Brechtniana.

Daí o que você espera de uma música que se chama “Canção de amor de um tempo ruim”? Parece ser blé, mas não: é um blueszinho, um popzinho jazzzado, uma coisinha lindígnea que dá vontade de colocar numa caixinha de música. Dá o play e continua lendo, mas depois volta e vê ouvindo, porque o clipe vale muito ser visto:

He he he, atire a primeira pedra quem nunca viveu um draminha à la Brecht.

O dramaturgo alemão é o autor do disco de Roberto Gava. Como, se ele morreu em 1956? Simples: Gava traduziu poemas dele e os musicou. Portanto, essa letra aí, dizendo que “se a gente se encontrasse na feira, talvez brigasse até por ninharia”, é do gênio alemão. Coloque num contexto em que viver na Alemanha significava enfrentar uma série de dificuldades, pobreza, guerras e… Brigar por ninharia na feira torna-se cena corriqueira.

Brecht é uma dessas cremosidades que a gente precisa conhecer, sabe? E que ideia MARA essa de tornar essa camada dele conhecida: a do poeta, e por meio de músicas. Virginie participa de duas faixas do disco, que conta com outros seis convidados, dentre eles, Zezé Motta. Ou seja: ansioso por ouvir o disco todo desde djá. Mas continuemos nessa faixa lindígnea. Aliás, bora pensar nesse clipe caseirão:

Ao receber as imagens da Virginie, fiz um roteiro de edição e tentei costurar um enredo como se estivéssemos filmando juntos. Tentei ficar no mesmo clima que ela na França e dar um ar homogêneo ao vídeo. A ideia foi mostrar um casal em busca de um encontro que nunca aconteceu de fato. Estranhos, mas apaixonados”

Roberto Gava

Percebeu? Ela gravou em Toulouse, na França. Ele, em São Paulo. Tomei um susto ao descobrir, porque realmente não parece. Inclusive pelo efeito em que ele sobrepõe sua imagem à dela, dando a entender que estão na mesma pracinha. A Virginie aproveitou essa ideia de coisas feitas à distância pra viajar sobre o som também:

Quando estamos ligados por um estado de Amor, por mais absurdo que pareça, não existe tempo ou espaço, e fica esta coisa desta pessoa presente como um leitmotiv, tatuada na mente, um filtro temático. Então é isso, se a gente se encontrasse na feira, nos afazeres do dia a dia, em meio a esta beleza da fartura de alimentos vegetais, coloridos, diversos, fotogênicos, sensuais, energizantes, militantes de alguma forma (rs); se estas pessoas se encontrassem, ou reencontrassem, seja aqui ou lá, como seria? Tipo ‘vou à feira buscar umas batatas e também aquele meu grande Amor’ (rs)”

Virginie, sendo fofa

Pensando bem, Brecht tem mesmo essa coisa com territórios – tanto que é considerado um dramaturgo de textos épicos. Em 2017 pûde interpretar “Ascenção e queda da cidade de Mahagonny”, concluindo a Oficina Circo Íntimo dos diretores Abaetê Queirós e Juliana Drummond. No texto, ele fazia uma sátira ao capitalismo (e estamos falando de algo escrito em 1930) com personagens trambiqueiros capitaneados pela viúva Leocádia Begbick, que resolvem construir uma cidade inteira, no Alasca, vocacionada à extorsão de seus visitantes. Uma cidade-arapuca, pois estaria no meio do caminho de lenhadores e pescadores, e que vivia leis próprias, segundo as quais seria possível aplicar sanções bárbaras a quem cometesse delitos irrelevantes e perdoar quem cometesse crimes horrendos, a depender da capacidade financeira da pessoa.

Metrô

Essa coisa linda e clássica do pop-rock BR chamada Metrô já foi tema do meu podcast crocantinho, o Disco de Segunda. Dá uma ouvida boa e básica, porque esse episódio tá really delicious –> pra ser mais fiel ao tema eu deveria descobrir como escrever isso em francês (o Metrô era composto por franco-brasileiros), mas… rs. Ouve, vai?

Arte sobre fotos de divulgação de Roberto Gava e Virginie


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