Um susto, uma paulada: CRASH! E a vida continua

Juçara Marçal dá uma porradaça com som urgente sobre o Brasil atual. Ouça!

O título desse texto é uma paródia. Originalmente era “Clash!”, e foi escrito por Ana Maria Bahiana há 41 anos, na Revista Somtrês. É um clássico do jornalismo cultural, que resolvi guardar nesse link aqui porque não quero perdê-lo. Era sobre o impacto que a aclamada jornalista teve ao ouvir os britânicos que revolucionavam o punk. Hoje, a paulada foi ouvindo Juçara Marçal, em seu novo lançamento: Crash. No qual ela entoa que faz “de tudo pra não entrar numa guerra, mas se entrar, não vou parar de guerrear. Ninguém mandou você vir me aperrear, vai tomar madeirada!”. Tum dum tss.

É sério, mano, mana, mane. Acho até melhor tacar logo o vídeo aqui. Cê deixa o som rolando, enquanto termina de ler o texto, e depois volta pra assistir à obra de arte da cineasta carioca Ana Julia Theodoro, a Naju.

Fiquei muito impressionada com a forma como Naju filma: imagens ágeis, feitas na vertical, para serem vistas na tela do celular. Tudo muito atual, acelerado, urgente. O conteúdo também é algo que impacta. Ela retrata um Rio de Janeiro diferente daquele mais conhecido: o Rio Zona Sul, de belas praias, cartões postais do Brasil, cenário que imediatamente nos leva ao som da bossa nova. O Rio de Janeiro de Naju é o da periferia, é marcadamente negro, é fervilhante… é o Rio do choque de realidade, do jeito de corpo moldado pelo revés, pronto pro embate e pro salto. E o fato de Naju ser skatista não é mera coincidência.”

Juçara Marçal, sobre o clipe.

Eu confesso que a princípio dei uma relativa torcida de nariz pras primeiras imagens de gente fantasiada e as máscaras, achei meio trash, mas daí começam as distorções eletrônicas a serem acompanhadas pela voz da cantora, e de repente as máscaras começam a aparecer em várias pessoas aleatórias, em situação de rua, em vulnerabilidade social, e você vai achando incrível o recorte de imagens rápido, e as imagens zero óbvias do Rio, e meu, que incrível! E o chamamento urbano à guerra tão setembro de 2021, enfim, que foda!

Daí ó só o que diz a cineasta, e fique ainda mais impactado.

A ideia principal por trás do vídeo, é mostrar a rua, a agitação suburbana que acontece conforme a batida da música. Tendo como protagonistas — em cenas rápidas — pessoas em situação de vulnerabilidade, revelando a invisibilidade do morador de rua, sobretudo por conta do aumento em grande proporção de pessoas nessa situação nos últimos meses. A ideia das máscaras é passar uma perspectiva artística, e também uma forma de abordagem nas pessoas em que cheguei, tranquilizando elas por não estarem aparecendo seus verdadeiros rostos, mas também sendo uma forma de quem tá na rua protagonizar o projeto”

Naju, sobre o clipe.
A canção

‘Crash’ é ataque surpresa, colisão. É grito de vingança. É usar o poder da raiva com astúcia. A base bombástica, pesada, é de Kiko Dinucci. Os versos contundentes são de Rodrigo Ogi, capaz de aliar com precisão e naturalidade Kill Bill, orixá Ogum guerreiro, cenas de HQ, como metáforas do destemor e da violência estratégica”, Juçara Marçal.

Pra definir direitinho, vou terminar por aqui sem dizer muito mais, por medo de que de alguma forma meu parecer sobre algo que deve ser apreciado livremente venha a direcionar suas emoções ao ouvir. Mas vou encerrar com trechos do texto que me inspirou a escrever este aqui, no próximo parágrafo. Todos eram sobre London Calling, do The Clash. Todos agora são sobre “Crash”, de Juçara Marçal:

A voz é verdadeira, é humana e tem raiva, desespero, gana de reagir. Ninguém está se exibindo e tudo soa como um único tecido vivo; negro, básico. Alguma coisa saída da noite dos tempos de rock'n'roll. Do Delta, de Memphis, de Detroit, do bairro jamaicano de Londres. Alguma coisa muito primitiva e muito refinada, uma barricada sonora que você agora ouve melhor, tem tantos pequenos detalhes e contracantos e riffs, que tornam quase impossíveis não fazer os dedos dos pés mexerem e as mãos ficarem suadas e inquietas e (será mesmo ?) seu coração bater mais veloz. isto aqui é diferente. Há alguma coisa aqui. Uma espécie de raiva. Uma espécie de guerra. A convicção de um condenado à morte clamando inocência. Alguma coisa quebrou, irremediavelmente, em seu peito. Você está vivo!!!!

PS: acho que não preciso dizer quem é Juçara Marçal. Se você precisa conhecer ainda, digo: perca mais tempo com outras bobagens na vida não, vá ouvi-la… Mas como este é só o primeiro single de um disco todinho, vou falando mais e melhor sobre ela daqui em diante…

Foto: Pablo Saborido / Divulgação


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