Peça “A Mulher Arrastada” vira livro e é sobre Cláudia Silva Ferreira, de quem não podemos esquecer

Caso ocorreu em 2014, quando um carro da PM arrastou o corpo de Cláudia por 350 metros, no subúrbio do Rio, e ganhou projeção pela frieza com que aquele corpo negro foi tratado: como “arrastada”.

O fim da vida de Cláudia não poderia ser mais bárbaro – no pior sentido que este termo pode ter. Ela estava no Morro da Congonha, no bairro tradicional da zona norte carioca, Madureira, quando foi duramente baleada ao deixar sua casa para ir comprar pão. Policiais militares, autores dos disparos, colocaram seu corpo no porta-malas da viatura para levá-lo ao hospital, porém a mala abriu e o corpo de Cláudia foi sendo arrastado pelo asfalto e dilacerado por 350 metros.

A notícia saiu assim: “Arrastada por carro da PM do Rio foi morta por tiro, diz atestado de óbito”

Mas há imagens que demonstram que ela ainda estava viva, enquanto agonizava pelas ruas.

Preciso dizer qual era a cor de Cláudia, ou ela já se formou na sua cabeça tal qual é? Aliás, se fosse uma mulher branca, será que para se lembrar desse caso ainda seria requerido algum esforço? Qualquer que seja a cor de pele de quem quer que passe por isso deveria ser irrelevante, a barbárie é a mesma. O problema é que são os pretos os que de fato passam por isso. É isso o que tá muito errado. Mais errado ainda é quando a cobertura que se dá ao caso corrobora com a desumanização de um corpo negro, chamando-o de “mulher arrastada”.

Como forma de homenagear aquela mulher, suas subjetividades, sua incrível vida – era mãe biológica de quatro filhos e adotiva de outros quatro, auxiliar de limpeza de um hospital – o dramaturgo gaúcho Diones Camargo escreveu uma peça sobre Cláudia. Espetáculo que já conquistou mais de 10 prêmios desde 2018, quando estreou e percorreu pelo menos 28 cidades brasileiras.

A mulher arrastada coloca em cena o que não é visto, nem ouvido, mas está aqui. É dramaturgia com poder de síntese e capacidade poética instaurada. É preciso ler e reler. Por isso, boa leitura, ou melhor, boa escuta a quem estiver de posse deste livro. Que bons ventos nos guiem.”

Dione Carlos – dramaturga, roteirista e atriz, na orelha do livro

Agora a peça é, também, livro. Que acaba de ser lançado por uma editora que acompanho por mera simpatia ao seu nome e identificação, já que vivo em Brasília: a Cobogó.

Neste dia 02 de setembro, a Livraria da Travessa fez uma live com o autor e a atriz, falando sobre o processo da peça. Vale muito a pena acompanhar:

Quer saber o que aconteceu com o comandante da operação que resultou na morte de Cláudia? A última notícia que tive foi essa aqui, que conseguiu uma promoção. Punição? Bom, punida foi “a mulher arrastada”, né…

foto: Divulgação / peça A Mulher Arrastada


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