Vamp faz 30 anos: porque precisamos de uma novela assim agora

Novela injetou entretenimento com realismo fantástico num país em crise. Estamos precisando de algo assim de novo

Em 15 de julho de 1991, uma segunda-feira, o país amanhecia com as notícias de que a inflação ainda não estava sob controle. O ministro da Economia era Marcílio Marques Moreira, e o jornal O Globo dizia, na capa, que “é intenção do governo manter a austeridade das políticas monetária e discal”, “apesar de não acreditar que a inflação DE JULHO chegue aos DOIS DÍGITOS”. Nosso heroi nacional, Ayrton Senna, achava que Nigel Mansell ganharia a Fórmula 1 daquele ano após a corrida de Silverstone, na Inglaterra – quem ganhou foi o brasileiro mesmo. Collor, nosso presidente, estampava a capa em foto vendendo saúde e jovialidade, ao lado de um fisioterapeuta e do jogador Toninho Cerezo. O Rio vivia uma onda de assassinatos de taxistas – 20 por mês. E o empresário Wagner Canhedo, de Brasília, tinha sofrido um sequestro há pouco tempo e a prisão de seus sequestradores seria decretada naquele 15 de julho. Na televisão, estreava Vamp.

Alheia à realidade, Vamp punha na tela a trama de Natasha, primeiro grande papel de destaque de Cláudia Ohana, que já há 12 anos fazia papeis menores na televisão. Natasha queria ser cantora, e belo dum dia surge diante dela o conde vampiro Vlad, que promete fama e fortuna. A ataca com a mordida, e ela vai parar em Veneza, onde, segundo Vlad, os maiores empresários do meio musical costumavam descobrir talentos – sim, surreal isso, os autores de novelas da Globo sempre foram muito criativos pra justificar a necessidade de tomadas no exterior. Natasha tá lá fazendo uma performance e mandando uns solfejos meio gregorianos, quando é vista por um empresário, vivido por Guilherme Leme. Detalhe de bastidor: essa performance, gravada meio que de improviso, feita na praça São Marcos (em meio a um pombaral que turista AMA tirar foto com elas, mas seguem sendo pombas tão pouco higiênicas quanto as brasileiras), quase rendeu a prisão de Ohana, porque é proibido cantar lá. Enfim.

Vlad descobre que Natasha foi, na encarnação passada, uma mulher que o rejeitou, e passa a persegui-la. E é esse o enredo da novela, ambientada na fictícia cidade litorânea fluminense de Armação dos Anjos – cujas cenas foram gravadas em Armação dos Búzios. Ela passa a querer se livrar da maldição de ser uma vampira, e só conseguirá se destruir Vlad. Pra isso, precisa encontrar a cruz de São Sebastião, que está escondida na cidade.

Mas Vamp não é divertida só pelo enredo de realismo fantástico. Ela tinha um núcleo cômico maravilhoso, com Patrycia Travassos e seu Matosão (vivido por Otávio Augusto) e o filho Matosinho (André Gonçalves). Tinha medalhões da atuação como Paulo José (e a filha, Bel Kutner), Paulo Gracindo e Cleyde Yáconis. E uma trilha sonora que precisa de um subtítulo à parte. A novela está disponível na íntegra, no Globoplay.

Trilha Sonora

Era comum que numa novela a trilha sonora tivesse, em média, 30 músicas. O normal era que começasse com a trilha nacional, dando o tema para os personagens principais, até metade da trama. Na segunda metade entrava a trilha internacional, dando temas aos personagens secundários que fossem ganhando espaço e, muitas vezes, substituindo os temas dos personagens principais. Eram as oportunidades de se lançar dois discos pela Som Livre – gravadora que, à época, tinha apenas uma artista no cast: Xuxa. Todas as demais produções eram coletâneas e trilhas de novelas.

Acontece que o tema do vampirismo e a trama eram tão legais que renderam mais um disco, o “Rádio Corsário – o som da galera Vamp”, com uma espécie de trilha para o spin-off da novela. Ou seja, foi das poucas tramas que ostentam 44 músicas na trilha. Os estilos são os mais diversos, mas por ser sombria, o grande destaque é o rock: “Tendo a Lua” dos Paralamas; “Suga Suga”, de João Penca e seus Miquinhos Amestrados; Skid Row, Lenny Kravitz, Beach Boys, Supla e Lobão.

Dentre as não-rocks, “De pies a cabeza”, do Maná. Que foi tema da abertura na Venezuela, e depois compôs a trilha sonora de Confissões de Adolescente, em 1994. Ah! E “The Lady is a Vamp”, um pop de Black and White, que não tem nada a ver com a música homônima gravada pelas Spice Girls em 1997.

Canta, Cláudia Ohana

Ok, a atriz foi bem zoada no tempo em que esteve cantando Nirvana e se apresentou nos Jôs Soares da vida, mas ali, em Vamp, duas músicas foram gravadas por ela: “Quero que tudo vá pro inferno” e “Simpathy for the Devil”, clássico dos Stones.

Calada Noite Preta

Vange Leonel é a dona da voz do tema de abertura de Vamp, lendária e cheia de referências da época, como a dancinha inspirada em Thriller, do Michael Jackson.

Vange foi vocalista do Nau (grupo de pós-punk) entre 1985 e 1989, e acabava de se lançar em carreira solo quando gravou este clássico. Que virou um hit imenso, porém, seu one hit wonder. Não emplacou outro sucesso tamanho, embora tenha lançado mais um disco em 1996. Foi quando abandonou a carreira musical e passou a se dedicar à causa LGBT (assumiu-se lésbica em 1995). Infelizmente morreu em 2014, vítima de um câncer de ovário.

Parentes e mais parentes

Parece uma grande família, essa novela, além de curiosidades bem estilo “cultura inútil”, mas que são delícia de saber:

  • Vange Leonel: era bisneta do Ataliba Leonel, general da Revolução de 32. Cujo nome só se tornou tão conhecido porque o Sílvio Santos vivia dizendo o endereço dos estúdios do SBT, na… Avenida General Ataliba Leonel.
o SBT funcionou até 1999 neste local, o antigo Cine Sol, na av. Ataliba Leonel
  • Vange também era prima do Nando Reis!
  • Cláudia Ohana é irmã do João Emanuel Carneiro, o autor de novelas da Globo como A Favorita e Avenida Brasil
  • Já falei de Paulo José e Bel Kutner, pai e filha, na trama
Lita Ree

Nossa rainha do rock fez participação na novela como Lita Ree – é um dos nicks que ela usa no Instagram, inclusive. Na novela, era amiga de Natasha. E em 1991, ela estreava como apresentadora na MTV, com seu lendário TV Leezão.

Musical

Vamp foi um hit tão grande que virou musical em 2017. Fez temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e no elenco teve Cláudia Ohana e Ney Latorraca.

foto: André Wanderley / Divulgação
Porque precisamos de mais uma Vamp

Vamp teve Tiago Santiago como um dos roteiristas. Foi ele quem, muitos anos depois, escreveu “Caminhos do Coração”, a icônica novela dos mutantes, na Record, bem como “Os Mutantes 2”. Também colaborou em “Uga Uga” e “Olho no Olho”. Ou seja, ele sabe escrever esse tipo de ficção que não existe (rs).

Ocorre que as coisas ficam bem melhores quando há uma necessidade absurda de fugirmos da realidade. E taí os motivos prováveis pelos quais “O Beijo do Vampiro” (que tentou ser uma continuação de Vamp) e as próprias dos mutantes, não hitaram tanto quanto Vamp. Vivíamos tempos de normalidade democrática. Agora não…

Olha como era o Brasil de Collor, de 1991:

Nos primeiros 15 dias de mandato, Collor lançou um pacote econômico que levou o seu nome e que bloqueou o dinheiro depositado nos bancos (caderneta de poupança e contas correntes) de pessoas físicas e jurídicas (confisco).

Embora inicialmente tenha reduzido a inflação, o plano trouxe a maior recessão da história brasileira, até então, resultando no aumento do desemprego e nas quebras de empresas. Aliado ao plano, o presidente imprimia uma série de atitudes características de sua personalidade, que ficou conhecida como o “jeito Collor de governar”.

Era comum se assistir a exibições de Collor fazendo cooper, praticando esportes, voando em caças da Força Aérea Brasileira e subindo a rampa do Palácio do Planalto, comportamentos estes que exaltavam suas supostas jovialidade, arrojo, combatividade e modernidade. Todos expressos em sua notória frase “Tenho aquilo roxo”.

Por trás do jeito Collor, montava-se um esquema de corrupção e tráfico de influência que veio à tona em seu terceiro ano de mandato.

Wikipedia, artigo sobre o impeachment de Collor

Eu não preciso traçar paralelos com os tempos atuais, preciso? Então, Tiago: dê seus pulos, faça seu corre, dê um jeito de escrever algo tão bom quanto. Ou um remake, mas por favor: um remake bom.

Engata Rita Lee nessa leitura!

Já que chegou até aqui, emenda na escuta deste episódio do podcast Disco de Segunda sobre a inefável Rita Lee? Ó:

foto: Arquivo TV Globo / Divulgação


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