Quero meu festival de volta

Troféu Candango. foto: Júnior Aragão, da SC

De agosto a setembro, todos os anos, a Brasília do marasmo e inércia que Renato Russo cantarolava dá lugar a uma cidade pulsante. É o tempo da Feira do Livro, do Palco Giratório, do Cena Contemporânea e, pra encerrar com chave de ouro, do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Ir ao Festival é uma delícia. Ainda que não dê as caras por lá para assistir aos filmes, o burburinho da praça de alimentação, montada todos os anos no anexo do Cine Brasília e ao lado do foyer, permite momentos agradabilíssimos de interação cultural.

O que diferencia o Festival de Brasília dos demais – o do Rio, o de Gramado e o de Paulínia, por exemplo? É o fato de ser uma mostra 100% inédita, conceitual e ambientada na ideia de formação crítica de plateias. Bom, era assim, até 2010.

Hoje, o governo do DF anuncia alterações estruturais no evento. Dentre elas, cai o ineditismo – jogando o festival na vala comum dos festivais brasileiros – e altera-se a data para setembro. O velho vício de imprimir marcas ao funcionalismo público, como que para reinventar a roda – é foda.

Crítica rabugenta? Não. Há um calendário nacional de festivais, e novembro, consagradamente, era o momento de Brasília. Até o friozinho de novembro, várias vezes com chuva, ajudavam a ambientar o clima da festa – que esse ano promete seca e muito calor, então.

Bom, o de Paulínia será de 07 a 14 de julho. O de gramado, de 5 a 13 de agosto. O de Brasília, de 26 de setembro a 03 de outubro. E logo em seguida, vem o do Rio: 06 a 18 de outubro. Ou seja: pode ser que muita gente que viria ao festival, priorize o último – que recebe muito mais aporte de recursos e é onde está a Globo Filmes.

A alteração de data também pode deixar produtores e diretores de cabelos em pé, uma vez que, tradicionalmente, muitos deles só conseguiam finalizar suas produções às vésperas do evento.

Quanto à decisão de deixar de exigir o ineditismo… Me parece um tiro no coração do evento. O GDF tira a característica conceitual, para torná-lo mais comercial e, portanto, concorrente dos outros três grandes festivais brasileiros (só pra continuar com o exemplo).  Há disposição do governo para bancar isso?

Paulínia, lembrando, é pólo petroquímico e sede da atual maior refinaria estatal do país – e a Petrobras, das maiores (se não, a maior) patrocinadoras do cinema nacional. O Rio, precisa falar qualquer coisa?

Eu mesmo tenho birra de filmes excessivamente conceituais e de boa parte do que se apresenta no festival de Brasília. Daí a torná-lo espaço para um “Se eu fosse você 3”, há uma distância bem grande (eu adoraria assistir a essa produção, mas não nesta ocasião).

Há coisas que são como dogmas. Longe de ser um defensor de tradições, queria apenas um pouco de respeito por algo que se consolidou ao longo de mais de 40 anos.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro está de cara nova. E eu só quero o meu festival de volta.

PS: aplaudi Ana de Hollanda e Hamilton Pereira, quando de suas nomeações. Agora, lamento. A primeira, por todos os episódios que a colocam na mídia desde janeiro (Direito Autoral, diárias condenadas pela CGU). O segundo, pela festa de 51 anos que, entre deslize e outro, colocou Ellen Oléria na pior, sem qualquer motivo.

PS2: não participei da coletiva de hoje (que anunciou isso, entre outras várias mudanças), mas vou buscar mais detalhes sobre o que me pareceu catastrófico.

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