A Hora de Clarice

Paulo Palavra*

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foto: Mariana Clara, do Flickr

Ler livros pedidos pelo colégio é sempre um saco. Por mais “literato” que você seja, ninguém, entre os 15 e 17 anos, lê A Moreninha por prazer. Eu mesmo, que sempre fui fã de livros, e à época do meu segundo grau já estava mui entretido com as primeiras aventuras de Harry Potter não tinha o menor interesse nas obras indicadas pela escola. Por que trocar todo aquele universo do bruxo adolescente por O Cortiço? Ah, é. Porque tem prova. E é aí que, na minha opinião, começa a chatice das leituras do colégio: a obrigação.

Depois da obrigação, a repulsa aos livros se dá pelos títulos. Quantos jovens de 15 anos têm a real capacidade de ler, compreender, perceber, identificar e interiorizar todas as nuances, todo o enredo, todo o pano de fundo, toda a poesia de Os Sertões? Eu mesmo, durante o colégio, sempre me interessei muito mais pelas lindinhas do 1º ano do que pela leitura de O Primo Basílio. E por fim, o total desinteresse pela leitura é ocasionado pela nota na prova: “Quê? Li aquelas 267 páginas pra tirar 4? Que inferno. Detesto ler!”

Toda essa introdução é para poder explicar o sentimento de arrependimento que me abateu há algumas horas. Fui visitar a exposição “Clarice Lispector – A Hora da Estrela”, em cartaz no CCBB, e me senti um grande idiota ao lembrar que um dos livros exigidos no meu 3º ano foi A Hora da Estrela. Não li. Busquei um resumo qualquer na internet, fiz a prova e pronto. Insisto, minha teoria literária no 3º ano me fazia todo sentido. E ainda havia o Harry Potter e as menininhas do 1º ano. Ah, aquelas gracinhas! Eu não ia trocá-las por uma personagem feia, sozinha e esquisita (que é o que me lembro da “estrela” do livro).

Mas foi inevitável não lembrar o golpe que dei na leitura de A Hora da Estrela. Fez falta ter mais conhecimento sobre Clarice Lispector para poder aproveitar tudo o que nos é oferecido na exposição. Mesmo assim, pude conferir um pouco do lado humano e questionador da autora “russa”. É, Clarice nasceu na Rússia, mas veio para o Brasil com poucos meses de idade. Então, cresceu aqui, aprendeu a falar e escrever aqui e, por isso, sempre se considerou brasileira. Entre os muitos documentos expostos na mostra há o registro de nacionalização de Clarice, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. E muitas cartas trocadas com figuras como Érico Veríssimo, Caio Fernando Abreu e seu filho Paulo, que foi, ainda garoto, estudar nos Estados Unidos.

Uma faceta bacana de Clarice e bem revelada na exposição é a que a liga ao mundo animal e à natureza. Adorei uma frase dela sobre os cães: “Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” Isso, pra ficar só nessa vertente mais leve.

O lado do mistério, do questionamento humano e do entendimento do que é a vida é ainda mais bonito: “O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se entendesse.” Forte, né? Todas as citações são apresentadas em instalações que brincam com jogos de luz, escritos na parede e painéis.

Há ainda um vídeo de uma entrevista que ela concedeu à TV Cultura. São as únicas imagens em movimento de Clarice. Entre muitas histórias ela fala de um professor de literatura de uma faculdade que adota A Hora da Estrela como livro obrigatório há anos. O problema é que ele próprio revelou a ela não entender o livro. Ao mesmo tempo, uma menina de 17 anos disse a autora que a obra era seu livro de cabeceira. E Clarice questiona: “Dá para entender? Não dá. E eu não ligo.”

Mas enfim, acho até que meu arrependimento não diz tanto respeito à época do colégio e sim ao período depois dele. Tive inúmeras oportunidades de ler toda a obra de Clarice. Trabalhei dois anos em uma livraria com todo o acervo à minha disposição. Mas não li.

Agora, é correr atrás para poder conferir nas páginas tudo o que vi na exposição – e muito mais, espero. E quem se interessou é bom correr também. A exposição fica no CCBB de Brasília só até dia 14 de março, próximo domingo. Vale a pena. E, por favor, esqueçam as menininhas do 1º ano! Eu já esqueci.

Serviço:
Clarice Lispector – A Hora da Estrela
Até 14 de março na Galeria 2 do CCBB – Brasília

PS: Se for até o CCBB não deixe de conferir a exposição que celebra os 120 anos de nascimento da Anita Malfatti. Vale a pena para conferir uma artista histórica e perceber detalhes e diferenças entre as fases da pintora.

Também vale uma passada na mostra Vertigem, d’ OSGEMEOS. Vale pela interatividade. Todas as peças em exposição te levam a entrar, tocar, mexer, brincar. Muito legal!

*Paulo Palavra é novo por aqui. Mas muito mais velho e constante na internet do que nós. Mantém os blogs Em se tratando disso e Histórias de um momento.

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