Coroa fogosa, enxuta e contemporânea

As cinco estações do amor, de João Almino

As cinco estações do amor, de João Almino

Impossível não se apaixonar por Ana, por vezes Diana, como foi batizada. Legítima representante de uma geração de jovens idealistas que chegaram a Brasília em plena ditadura militar para estudar na UnB de tudo que é canto do país, revolucionando hábitos e costumes de uma capital que se propunha a ter hábitos cafonas-ignorantes, repetindo os hábitos e costumes da high-society que mandava no poder na antiga capital.

De uma geração que encheu o rabo de maconha, que frequentava o Beirute e, desde então, o fazia ganhar os contornos alternativos que permanecem ainda hoje. De uma geração que se tornou punhado de professores universitários da UnB, ou donos de comércio. De uma geração que hoje aparece no Brasília na TV, ou não. Que tem casa no Lago Sul e que viu, com a vinda da democracia, a Brasília utópica de suas juventudes, virar essa cidade de fachadas “precocemente envelhecidas” da W3 Sul.

Ana, como é conhecida a Diana pela qual foi batizada – uma outra face de Ana, destemida, despudica, sedutora, femme-fatale, escondida em Ana covarde, pudica, sem graça – é dona de uma melancolia comum a quem viu a vida ser corroída em um de seus principais seus sentidos, o poder de sonhar. Aos 55 anos, deixou de fazer boa parte do que quis durante a vida. Agora, espera que algo inesperado aconteça e quebre esses dias comuns.

Então ela consegue o sexo fácil, dois beks, uma palestra da UnB para defender a teoria do instantaneísmo, formulada por ela – e não vou definir aqui porque, a cada instante em que vive cada uma das cinco estações do amor, ela a reformula -, uma arma para tentar esfolar os miolos sem que morra e o incêndio de sua casa e de todas as suas lembranças, a volta a També, Minas Gerais, onde nasceu. O marasmo da terra natal é maior que a melancolia brasiliense, então o amor recobra sentido na vida dela e ela volta. Apaixona-se. E desperta paixão entre aqueles que compartilham com ela uma parte de sua vida.

As aventuras e fantasias de Ana estão relatadas na minha boa surpresa literária e brasiliense do ano. As cinco estações do Amor, de João Almino. De ótima leitura e fácil de encontrar.

Mas chega de Ana. Tem hora que ela é uma chata, desgostosa do mundo.  Conheço alguns reais legítimos representantes desa geração de Ana, que chegou a Brasília revolucionando hábitos e costumes de uma capital que se propunha a ter hábitos cafonas-ignorantes. Ao contrário dela, que fez das impressões juvenis experiências que a tornaram muito melhor, estes, seres reais, se esqueceram ou quiseram esquecer um pouco daquele delírio juvenil, que, em doses moderadas, pode colaborar para uma visão de mundo mais justa. Viraram investidores da Bolsa de Valores, mercenários filhos da puta, donos de fazendas e de carrões, ordinários opressores ao assumirem cargos de chefia em órgãos públicos, orgulhosos de seus estúpidos status. Coisas que não importaram, um dia, quando estiveram presos pela ditadura. Incapazes de olhar para os subordinados com dureza, mas sem perder a ternura.

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