Balança, Cena!

O Cena Contemporânea 2008 se foi. Deixou gostinho de quero mais, saudades e exaustão. Pela última semana, acompanhar o festival internacional de teatro de Brasília tornou-se uma experiência tão intensa e profusiva, as informações eram tantas, tantos eram os formatos, formas e conjuntos de surpresas, que escrever ao fim da noite poderia tornar-se insalubre a uma mente desgastada com tantos confrontos criativos.

Participei da Oficina de Crítica Teatral, todas as manhãs, com o jornalista e crítico Sérgio Maggio. No total, assisti sete espetáculos. Como só falei de Congresso Internacional do Medo (do grupo Espanca!, de BH) e de Édipo (cia. Benedita de Teatro, de GO), estou em dívida. Para saná-la, um balanção. Lá vai:

Davide Venturini, para o site do Cena.

Chão interativo de "O Jardim Japonês". Ao pisar nas tábuas da ponte, um som. Foto: Davide Venturini, para o site do Cena.

O Jardim Japonês

Dirigido às crianças, produzido por uma companhia italiana. Demais! Na verdade, não é uma peça de teatro. É um espetáculo que envolve contação de histórias, performance, instalação multimídia e criatividade. Ao chegar à sala Plínio Marcos, da Funarte, naquele sábado (31/08), eu e os demais espectadores fomos convidados a dispor de nossos sapatos e dirigirmo-nos de meias ou descalços ao palco. Lá, uma pequena arquibancada de três degraus em forma de arena. O som e a pouca luz tornavam o ambiente aconchegante. Achei que era só eu que sentia isso, mas as muitas crianças compartilharam da opinião: ficaram quietinhas. Ouviram a história de Shiro, uma lenda que fala sobre como surgiu o jardim japonês. Após uma bonita performance, elas (as crianças) eram convidadas a interagir com as imagens projetadas no chão, que recontavam a lenda. Parecia um video-game, só que as crianças não precisavam manipular joistiques para fazer com que seus personagens agissem: elas mesmas o faziam. Um espetáculo inteligente, pois sabe que criança não é imbecil e detesta vozinhas infantilóides em personagens debilóides. Genial.

divulgação, no site do Cena.

O som no apartamento de cima, a princípio, perturba a família. Com o tempo, torna-se momento de sapatear. Foto: divulgação, no site do Cena.

Amores Surdos

Hora de me redimir com o grupo Espanca!, pelos comentários de Congresso Internacional do Medo. Que tal chegar ao teatro e, de repente, um dos personagens da peça, contar o roteiro dela todinho, antes dele começar a se desenrolar? Ah, se perdeu a graça? Não. Aí é que ela começa. O personagem é sonâmbulo. A desconstrução da narrativa começo-meio-fim soa muito interessante na peça. Aliás, realizar essa desconstrução é sempre perigoso no teatro, pois é o que todos querem (sabe aquela coisa de querer reinventar a roda? É comum no teatro), mas poucos o conseguem com competência. Caso de Amores Surdos. Mostra o cotidiano de uma família como outra qualquer, com seus perrepes diários, que, com o passar do tempo, automatizam-se tanto a seus membros que são como um sapateado – é desta forma (sapateando) que eles retratam o dia-a-dia. Na interpretação de Beraldina (a Lílian Beraldo, consultora deste blog – quem o lê com frequência já sabe quem é), seriam os momentos “família propaganda de margarina” deles, em que tudo está ruindo, mas “vamos fingir que está tudo bem”, pensamento tão comum nos lares? Tô fazendo mea-culpa ao Espanca! aqui, vai… Mas pelo menos o que vi naquele domingo (1º), no CCBB foi uma desempenho extremamente superior ao do dia 28, em Congresso Internacional, na sala Martins Pena. Narrativa sólida, boas interpretações e mensagens marcantes. “Tem coisas que a gente tem que aprender a viver com elas”… Que seja um hipopótamo, capaz de ensinar um dos filhos a respirar direito, mas que também é capaz de destruir um lar por dentro, tornando aqueles amores de família cada vez mais surdos. Tão surdos a ponto de deixarem um dos membros dela, o Samuel, definitivamente de fora da casa. Ainda que ele apele, grite e sapateie para voltar àquela família.

Fernando Lobo, para site do evento.

Tuca Moraes é Lima Barreto, quando alcoólatra e interno de sanatório. Foto:Fernando Lobo, para site do evento.

Estação Terminal

Como utilizo algumas peneiras antes de escrever, uma delas é a da necessidade e a outra é a da maldade, pulo a tentativa de fazer um balanço de Estação Terminal. Promovido pela cia. Ensaio Aberto, do Rio, o assisti no teatro Sesc Garagem (913 Sul), dia 2. Trata-se de um quase-monólogo interpretado por Tuca Moraes, sobre a biografia de Lima Barreto. Não vai rolar mais do que isso. Foi mal, prefiro dar outra chance ao grupo, para que depois comente sem precisar fazer meas-culpas.

Resta Pouco a Dizer

Dalton Camargos, no site do festival

Um homem pode ser automatizado pelo relógio. Pode deixar a vida o levar, também. Ato sem Palavras II, de Becket. Foto: Dalton Camargos, no site do festival

Se tivesse terminado a semana com esse excepcional espetáculo dos irmãos Guimarães (Fernando e Adriano), seria um fecho genial. Da companhia Gabinete 3, do DF, e com a sala Martins Penna quase lotada na quarta-feira (3), as três pequenas peças de Samuel Beckett (traduzidas por ninguém menos que a ‘ame-a-ou-odeie-a” Bárbara Heliodora, crtítica de teatro do O Globo), “Catástrofe” (de 1982), “Ato sem palavras II” (de 56) e “Jogo” (de 62/63), ganharam vida em atores talentosos. Resta pouco a dizer quando não há mais “nenhum som, nenhum som, só a velha respiração”, essa que ocorre involuntariamente para que o ser humano tenha vida. O início, composto por uma esquete em que dois atores só podem falar quando acabam seus fôlegos, cada um dentro de um aquário, e os intervalos entre-peças, em que os atores continuam a trabalhar a temática da involuntária respiração, afogando-se em baldes d’água, levam a tantas conclusões e possibilidades interpretativas que resta pouco a dizer, além de que é genial. Tô brincando, me comprometo a fazer um texto só pra peça. Se me prolongar, você não vai aguentar até o fim.

Fico devendo, também, algo sobre o espetáculo “Cidade em Plano”, também ótimo. Melhor fazer depois, porque já deu pra perceber que rolou um excesso de informações nesta semana, né?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s