Medo no teatro

Calixto, para o site do Cena Contemporânea.

Congresso Internacional do Medo: medo zero. Foto: Calixto, para o site do Cena Contemporânea.

Já há alguns dias está em cena o Cena Contemporânea, em Brasília. Não estamos de fora, e vamos contando aqui. Com uma programação extensa, Brasília passa por uma invasão teatral – artistas de tudo que é buraco do país e do mundo estão aqui. Eu (Morillo) faço uma das oficinas: a de Crítica Teatral, com o jornalista e crítico do Correio Sérgio Maggio. Espero aprender bastante e poder repassar o recado por aqui e qualificar a crítica que praticamos. Quem não sabe, o Maggio é o cara – mas falar sobre ele fica para depois do término da oficina, em 7 de setembro. A primeira peça a figurar por aqui é Congresso Internacional do Medo, do grupo Espanca!, de BH.
Confesso: tenho dificuldade de compreender a mensagem de coisas excessivamente conceituais. Não que eu defenda que tudo quanto é obra de arte deve ser palatável a todo mundo ou que desça a um nível semi-infantil, mas tudo que tem ponderação soa melhor para mim. Disse isso, logo de cara, porque o Congresso deixa a mensagem nas entrelinhas ao invés de explicitá-la de cara. Mas é evidente que coisas excessivamente conceituais, muitas vezes, nem isso fazem.

Congresso foi construído com a colaboração de todo o corpo teatral. É o chamado “teatro colaborativo”. Neste caso, o diretor não dirige o espetáculo, ele o edita. Maquiadores, figurinistas, cenógrafos e sonoplastas se sentam à mesa com atores, produtores e direção para discutir absolutamente tudo, das idéias à luz de palco. Daí a confusão conceitual também. Não sou contra teatro colaborativo, mas a peça segue um linha do princípio até determinado ponto, e então se perde!

Trata-se de um congresso mesmo: uma mesa com especialistas de determinados perfis, que não sabe exatamente o que faz ali. Vindos de tudo que é canto do mundo, apenas dois falam em português. Os demais passam pela tradução de uma tradutora. Nenhum é especialista em medo, mas em temas xis, que contemplam os traumas contemporâneos: síndromes, remanejamento de pessoas por conta de inundações de hidroelétricas, etc.

Enquanto eles falam, falam e discorrem sobre suas vidas e traumas, dois dançarinos fazem performances no nível inferior ao da bancada de congressistas. Daí o princípio da dificuldade em compreender determinados conceitos agregados a uma obra. A mim, pareceu sem lógica, descontextualizados. No debate, na oficina de crítica, eles se justificaram que a idéia dos bailarinos é colocar movimento em cena, tirar a monotonia de uma peça que se passa num congresso. Mas, honestamente, não dava. Ou se prestava atenção na cena, ou nos bailarinos. Em breve teremos a colaboração de Juliana Nunes por aqui, trazendo o ponto de vista dela.

João Marcos R., para o site do Cena Contemporânea

O cara vive num pedaço do continente que se desprendeu e passou a flutuar pelos oceanos do mundo. Foto: João Marcos R., para o site do Cena Contemporânea

O roteiro, ou texto, ou seja lá qual for a linha de conexão de falas estabelecidas pela peça também tem uma quebra abrupta, mas vou deixar para que quem assisti-la a perceba. Só sei que vale destacar a atuação dos caras (são muito bons), especialmente a tradutora. Uma grande amiga, jornalista, minha ex-chefe e estudante de teatro, a Isadora Grespan, salientou o belo trabalho de voz. Exceto o cara que fez o papel do índio – que requer tons mais altos mesmo, para a própria construção do personagem -, nenhuma gritaria. Olha que a apresentação foi na sala Martins Pena, do Teatro Nacional, que tem uma platéria bem íngreme e eu fiquei lá em cima – ouvi absolutamente tudo, impecavelmente.

Os demais elementos de cena – cenário, luz, figurino, composição dos personagens, etc, estavam ok. Se isso fosse uma crítica, recomendaria. Como não é, aponto as ressalvas. Mas vale a pena. Ah! Quanto ao medo… Vá com fé, não dá nenhum pouquinho. Ao contrário do que sugere o título da peça, não há terror envolvido – pelo contrário, rola até um parto.

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4 pensamentos sobre “Medo no teatro

  1. Assisti a essa peça no FIT – Rio Preto e, sinceramente, não fosse eu ter visto a palestra da Grace não teria entendido o final – que ela contou explicando os porquês.
    Ano passado me encantei com Amores Surdos, já esse ano deixou a desejar, por mais que a intenção tenha sido boa.

  2. Olá EPTV!
    Primeiramente, obrigado pelo comentário e pela visita.
    Quanto ao final da peça: eu teorizo que este seja um problema da produção nacional. Não é só no teatro, nos filmes também sinto muito a falta de finais conclusivos, de fato…
    Grande abraço!

  3. Então, na palestra a Grace falou que inicialmente a morte da tradutora poria em xeque o Congresso, já que nenhum falava a língua do outro. No entanto, durante o processo de criação da peça eles viram que conseguiam se comunicar sem a tradutora. A partir disso, a morte dela seria como o ponto em que todos se entenderiam.

    Vi a programação. Não deixe de assistir Acqua Toffana (a Dani Barros é muito bacana, se tiver oportunidade de conversar com ela, converse), Amores Surdos (o melhor do Espanca! na minha opinião) e O Menino Teresa (essa é imperdível, apesar de ser infantil, a Cláudia Missura é sensacional, ela se diverte no palco… é tida como uma das revelação do teatro paulista).

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