The pimbas e os taxistas de Salvador

site do Sérgio Sakal, colecionador

Postal baiano de 1982. Nada a ver com o texto, a não ser o ambiente. Imagem: site do Sérgio Sakal, colecionador

Com esse texto, iniciamos uma nova categoria de posts: os psicoestimulantes. Eles fogem totalmente ao padrão jornalístico, mesmo o gonzo, que gostamos tanto de praticar aqui (ainda que mal e porcamente, hehehe). São o espaço de publicação dos nossos devaneios. Ou seja: textos com cara de blog mesmo. Falam sobre água, ou sobre xis. São tolices de mentes tolas, que acham interessantes coisas que boa parte das pessoas não acha.

Este texto é sobre os Pimbas e as inacreditáveis histórias de taxistas soteropolitanos (não, não estou os xingando. Soteropolitano é aquele que nasceu em Salvador – BA). Pimbas, os pimbas… Ah, como eu detesto pimbas! Pimbas são os pseudo-intelectuais metidos à besta e associados. São pessoas que se travestem de inteligentes, frequentam lugares charmosos, usam roupas alternativas… Mas na verdade, não são nada daquilo. Se sentem intelectuais porque leram Nietzeche e adoram falar de Kafka. Mas, na verdade, leram na web a análise crítica sobre a obra deles para poderem comentar, nos lugares bacanudos que váo.

Eu não sou pimba. Nem intelectual. Sei que nada sei, escrevo minhas impressões, por mais frívolas que sejam. Ao menos, são autênticas. Sou simples e gosto de gente simples – claro que não me furto de determinados luxos e de tomar café expresso todos os dias à tarde com a Ana Luiza, também dona deste blog, e a Beraldina (Lílian Beraldo), amiga, editora e consultora desta farmácia. E sei que tomar café expresso é hábito de pimba. Fodam-se os pimbas, eles que parem de tomar expresso… É que pimba sabe o que é bom, apesar de não gostarem de verdade – só se forçarem a gostar para demonstrar inteligência.

Os intelectuais é que são legais. Eles não se acham. Não usam calça xadrez para posar de “olha como eu sou foda”. Não falam de Dostoievski num boteco. Os simples também são legais. Não entram nos ambientes pimbas porque sabem que ali só tem gente chata que fala sobre coisas chatas. Não dizem que gostam de música clássica porque não gostam de música clássica, nem de black music – agora é in entre pimbas gostar de black music.

Mentirosos da porra, doidos pra ir no show da Ivete, ficam se frustrando na roda de samba do Balaio Café. O bom é que, outro dia, tava rolando um jazz/MPB por lá e não tinha um pimbinha sequer. Porque jazz é impossível para um pimba. Um intelectual é capaz de apreciar e um simples, de achar lindo – e apenas isso – mas um pimba não suportaria à tentação de falar e, simplesmente, não saber o quê – antes que fique parecendo que eu entendo tudo de jazz, fica a dica: não sei lhufas, faço parte do grupo dos simples que acham apenas bonito.

E os taxistas da Bahia com isso? Prestes a voltar pra Brasília, com malas despachadas e batendo este texto no aeroporto, fui fazer um balanço mental da viagem que durou três dias e em que não comi um acarajézinho, nem fui ao pelourinho, nem tomei um banho de água salgada. E me lembrei das histórias de dois taxistas. Nada pimbas. Um intelectual e um simples.

O intelectual leu “O Capital”, de Karl Marx – “coisa que muito sindicalista nunca leu e nem é capaz de ler por causa da linguagem erudita, mas vivem falando dele”, dizia. Assim, ele me lembrou de outra classe de pimbas: os da esquerda metida a intelectualizada brasileira. O cara já foi hippie, faz parte de uma filosofia de vida que teve seu principal líder morto – “porque os grandes líderes sempre são mortos”, dizia, e já foi funcionário público, mas se emputeceu com as podridões que via no governo e resolveu virar taxista. Ele também desceu o malho no Tarso Genro: “um ministro da Justiça, por definição, deveria ser um jurista, não um mero indicado político”, dizia, com garbo e simplicidade.

O simples sabe diferenciar pessoas cultas das de baixo nível. Tem 28 anos, é casado há 10 e a conhece há 15, tem uma filha. Perdeu a virgindade com uma puta e diz que foi horrível. Para ele, pegar uma puta é assinar um atestado de incompetência. Ele tem lá seus 1,90 e poucos, é moreno, forte e bem vestido. “Conheço o Paulo Zulu”, me contou, na simplicidade. E também aquela modelo, Giani Albertone (é isso mesmo?). Como? Ele também foi modelo. Mas um AVC o afastou das passarelas. “Fiquei feio, tive depressão por alguns meses”, me mostrando que não conseguia mover o olho esquerdo e o mesmo lado da boca. Chega. Não prosseguiu, é ruim falar sobre isso. “A vida continua”, completa. Ele é culto sem ser intelectual, muito menos pimba. Simples assim.

Eu sou jornalista porque adoro contar histórias que não sejam as minhas. Especialmente as de gente como eles, que viram amigos por instantes e sabem que talvez nunca mais vão ver o novo amigo. Histórias de pessoas que trabalham nas ruas, nos lugares em que pimbas não trabalham e que evitam. Detestaria contar histórias de pimbas, porque essas sim, devem ser chatas demais.

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2 pensamentos sobre “The pimbas e os taxistas de Salvador

  1. Quem mora em Brasília sempre sabe o que é Pimba, não tem jeito. Conversava sobre isso agora à pouco; e você tem razão: capricha nas histórias dos simples que a gente realmente ganha mais.

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