Um naiff nato


O blog foi de novo na minha mala de viagem em busca de drops novos, distantes dos que podemos encontrar no quadradinho (vulgo DF). Desta vez, não fomos tão longe: a 250 km (+ou-) de Brasília, acontece um dos mais importantes encontros de culturas tradicionais do Centro-Oeste, em São Jorge, povoado do município de Alto Paraíso de Goiás. Lembra que disse que tentaria ir? Pois é. Passei um dia, uma noite e um pedacinho do outro dia por lá.

A história que segue é de um dos artistas mais legais que já conheci. É porque ele mal consegue falar, e a arte é sua única forma de comunicação com o mundo exterior ao seu. Sem fazer qualquer escola, sem mesmo sair do vilarejo, olha que sensacional que é a fachada da sua casa… Segue o drop…

Ele é uma atração à parte no 8º Encontro de Culturas Tradicionais do Centro Oeste. Sua casa chama atenção: logo à entrada do pequeno vilarejo de São Jorge, afastado cerca de 40 km do município de Alto Paraíso de Goiás (GO), e onde ocorrem as atividades, ela tem nas paredes as marcas da intervenção colorida de Moacir Soares, considerado “o artista do Cerrado”.

Aos 45 anos, ele nunca saiu do povoado. A arte que desenvolve é semelhante à naiff – aquela cujas obras parecem ter sido desenhadas por crianças – mas ele nunca fez escola alguma. Na verdade, Moacir mal fala, pois é na arte que encontrou a melhor forma de se expressar. Para conseguir entender um pouco sobre o artista, é preciso conversar com sua mãe, dona Maria Apolinário.

“Ele desenha desde antes dos 7 anos completos. Começou do nada, e ficava bravo porque eu não tinha condições de comprar os materiais pra ele”, conta Maria. Ela foi para o povoado em busca de emprego no garimpo “há muito tempo”, tanto, que nem se lembra há quanto – aliás, os moradores mais antigos, como ela, contam que foi desta forma que chegaram os primeiros habitantes do local, no início do século passado. Cravado na Chapada dos Veadeiros, São Jorge fica numa região rica em cristais.

“Desde pequeno ele é desse jeito”, conta dona Maria, questionada sobre a dificuldade de expressão do artista. Segundo o site da Casa de Cultura de São Jorge, que é o ponto de cultura que organiza o Encontro de Culturas Tradicionais, Moacir evitava o convívio social quando criança e, por isso, as pessoas o consideravam louco (esquizofrênico), no entanto, ele já foi submetido a vários exames que constataram sua sanidade.

Pela casa de Moacir (que mais parece um atelier), as obras ficam espalhadas por todos os cantos: ele produz telas, cartazes, painéis e pinta as paredes de casa – as de dentro e as de fora. O forte apelo sexual de parte de suas obras tem explicação também ali: fotografias de mulheres nuas espalham-se pelos poucos móveis. Além da temática erótica, ele também passeia pelo sagrado e o profano, com representações de Nossa Senhora Aparecida e do diabo, por vezes na mesma obra.

Na página da internet da Casa de Cultura de São Jorge, é possível acessar uma galeria de fotos com as obras de Moacir.

*A foto é do Roosewelt Pinheiro, meu amigo da Agência Brasil, que foi comigo pra São Jorge

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