Amyr, Ayres e Água Salgada


Aviso de antemão que este texto é sobre “Cem dias entre céu e mar”, do Amyr Klink. O recado prévio é porque, para mim, é uma missão difícil falar desta obra sem ser um tanto quanto introspectivo…

Dia 08 de julho agora (oito dias atrás). Abri a porta do dorminório do InterCity, em Florianópolis (SC), e mandei “parar tudo” para que pudesse contemplar os pequenos momentos prósperos que temos na vida. Da janela do 12º andar, onde fiquei, uma bela vista noturna daquele enorme marzão-de-meu-Deus que encontramos a mais de mil quilômetros de Brasília. E bateu a saudade da minha terra natal, Santos. E bateu o questionamento: será que nasci pra viver, mesmo, tão longe do mar?

Creio que nas minhas veias não corra sangue, mas água salgada. Além de ter nascido caiçara, meus antecessores tiveram suas vidas, ou boa parte delas, entregues a ele. Meu avô foi marinheiro. Meu pai, idem. Eu sou jornalista por causa do mar, também. Estourou-se a Guerra do Golfo (a de 1990), e meu pai estava lá. Era imediato (uma espécie de vice do comandante). Metade da tripulação, amedrontada, se rebela. Exige do governo brasileiro a retirada deles de lá.

Meu pai nunca teve veia de rebelde. Pelo contrário. É quase militar na disciplina com os cuidados físicos, a alimentação e os estudos. Não estava com eles. O governo atende aos revoltosos, mas os exonera logo que eles pisam em solo brasileiro. Quem assume o comando do navio? Ele, Francisco das Chagas, mais conhecido como Peres na Marinha. A Globo consegue seu contato (deve ser via rádio-amador), e sua gravação vai ao ar naquela noite, no Jornal Nacional – era o meu pai, em rede nacional! Tinha seis anos. Ali, com certeza, estava plantada a semente do que me tornaria anos após.

O desfecho da história: meses depois meu pai desembarcou para assumir uma função operacional num terminal da Petrobras na bela São Sebastião, dona de 100 quilômetros do litoral norte de São Paulo e, com certeza, uma das faixas de praias mais bonitas deste país. Os paulistas orgulham-se de Maresias, Boiçucanga e Paúba, meio sem saber que, na verdade, aquelas praias não são mini-cidades, e sim, bairros de São Sebá.

Afastou-se, mas nem tanto, do oceano azul e apaixonante. Assim como eu: afastei-me há 12 anos da convivência diária com ele, para viver no interior com saudades da água salgada e da maresia. Foi essa saudade que “Cem dias” despertou em mim, página a página, relato a relato de Amyr, recolhidos de seu diário de bordo pelos 100 dias em que, sozinho, ele remou, remou e remou, incansavelmente, de um pequeno lugarzinho-no-meio-do-nada, na Namíbia (pequeno país africano), até chegar na nossa Salvador baiana.

Os relatos apaixonados de Amyr, que sintonizou a Rádio Nacional da Amazônia no meio do oceano (e eu fiquei com o maior orgulho, já que trabalho na mesma empresa desta emissora e, vira e mexe, faço alguma coisa para ela), que soube identificar e até deu nome aos dourados que o acompanharam em boa parte da viagem, que tomou alguns sustos quando tubarões e baleias insistiam em roçar o casco de seu pequeno barco a remo enquanto ele dormia… Tudo isso torna mais que aprazível a leitura do primeiro livro de Amyr.

O que mais me aproximou desta obra não foi o mar, nem a saudade. Foi o Ayres. O Ayres é um dos personagens de “Cem dias”: embarcado no N/T Felipe Camarão, também da Petrobrás, milhas e milhas distante de Klink, ele conversava com o solitário remador, via rádio amador. Mandava força dos marinheiros. Motivava Amyr quando estava desanimado. Acreditava nele. E eu com isso? Explico: o Felipe Camarão, salvo engano, foi um dos supertanques petroleiros em que meu pai trabalhou. Tem como me sentir longe?

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